RAZÃO E FÉ 

Francisco Mancebo reis

Há tarefas que a razão não realiza sem o auxilio da fé.
 
Alguns exemplos: harmonizar o livre-arbítrio do homem com a soberania de Deus;
desvendar os segredos sobre a origem do universo a partir de um principio sem causa;
conciliar a unidade de Deus (único) com sua pluralidade (três pessoas);
tornar compatível com a perfeição divina o despojamento humilhante do Verbo que se fez carne,
bem como sua geração no ventre de Maria por “obra e graça do Espírito Santo”.
 
São verdades que aceitamos sem explicar.
 
Sobre o mistério do novo nascimento,
o próprio Cristo desafiou a erudição humana de um mestre em Israel:
“... não sabes...” ( Jô 3.8)

Essa estreiteza intelectual abre espaço para a fé.

O autor da carta aos Hebreus sabia dessas limitações da mente humana:

“Pela fé entendemos...” (Hb 11.3).

adicionou   um instrumento de maior alcance e exclusivo da ciência mais elevada e transcendente, que é a Teologia.

Se as ciências humanas nunca esgotam assuntos no âmbito dos fenômenos materiais físicos, que dizer das questões metafísicas e imateriais? Como lidar com elas?
O que esta acima não torna a fé irracional e contraria aos postulados científicos.
 
O versado apostolo Paulo permeia de fé os seus escritos, mas não dispensa o bom uso da razão.
 
Uma amostra é o “culto racional” (não racionalista) cobrado em Rm 12.1

O objetivo grego para racional corresponde a lógico em nossa língua, e se traduz também  por espiritual, mas a espiritualidade como puro misticismo não consta na pregação do homem Tarso, nem estaria ele submetendo o cristianismo ao esquema frio do raciocínio humano sem aquece-lo  com a fé como dom divino, que não exclui a racionalidade.

Querem alguns que Deus seja objeto apenas do pensamento engenhoso, perspicaz. Outros pretendem conhece-lo por meio da fé alienada de qualquer reflexão.
 
Dois extremos.
 
Nos tempos bíblicos esses dois grupos já existiam em duas culturas conflitantes.
 
Os gregos, demasiadamente apegados ao saber humano,
consideravam a cruz de Cristo um sinal de atraso, ignorância divina.
 
Os judeus, sempre na expectativa de prodígios, viam na cruz uma expressão dd fragilidade. Enquanto a mente grega era filosófica e especulativa, a mente judaica era pratica e mística.

Ambos foram confrontados por Paulo, portador das duas culturas. Enfrentou a critica e proclamou o Cristo crucificado como “poder de Deus, e sabedoria de Deus” (I Cor 1.21-25).

Conversando com um conceituado medico, estranhei sua interpretação do nascimento de Jesus. Em nome da ciência, admitiu o processo biológico natural, omitindo o sobrenatural. Sendo assim, para aquele medico, Jose foi o pai legitimo do Messias. Absurdo da descrença! Um senhor, egresso do meio evangélico, passou a pregar sua confiança restrita ao Novo testamento, alegando que o Velho Testamento não é cientifico. Tive oportunidade de lhe dizer que a encarnação do verbo e os demais milagres narrados no Novo testamento ultrapassaram as fronteiras da ciência. É preciso exercer fé para aceita-los.

            Imagine-se um atleta comparecendo as Olimpíadas somente pela fé, sonhando com medalha, sem os preparativos adequados. Um simples pontapé na bola envolve fé e razão. Um passe inteligente inclui o pe e a cabeça. Assim as mãos do vôlei, etc.

A pregação do evangelho não e diferente. O pregador não tem direito de subir ao púlpito apenas pela fé, negligenciando o preparo do sermão. A bíblia é mais do que um manual místico. Sua exposição une a fé correta ao raciocino disciplinado. O culto solicitado por Cristo dever ser “em espírito e em verdade” (Jô 4.24). atente-se para o equilíbrio de Paulo no exercício da oração e do cântico: “Orarei com o espírito, mas também orarei com o entendimento; cantarei com o espírito, mas também cantarei com o entendimento” ( I  Co 14.15) .

Se em Rom 12.1 (“culto racional”) a razão ilumina a fé,
em Hb 11.3 ( “pela fé entendemos”) a fé ilumina a razão.

Companheiras inseparáveis, desde que uma e outra sejam fieis!