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1 - Conversa com a Bíblia

             Inicialmente, podemos observar que todas as comunidades bíblicas consideram a Bíblia como "palavra de Deus". Assim, muitos consideram que essa pode falar a nossa vida, sendo essa forma considerada como a verdadeira leitura da Bíblia.

             Além disso, é preciso destacar que quando isso acontece ocorre um verdadeiro encontro, contudo não desistimos de nossa capacidade mental diante da Bíblia. Isso significa que: autoridade não é imposição. Desta forma, a autoridade que esse livro nos transmite corresponde a uma atitude que os próprios textos bíblicos consideram como atitude adequada para "encarar" Deus: a fraqueza, parrêsia, a liberdade de falar, de conduzir um diálogo com quem nos fala com autoridade.

             E como, num diálogo nada é decidido de antemão, um novo sentido das coisas surge do encontro entre essas duas palavras, que são: a do texto e a minha. Assim, sem a minha palavra, a "conversa" com o texto não sai, e o que os antigos me deixaram não consegue virar nosso.

            Conseqüentemente, tudo se resume em "eu, com o texto, descobrir o sentido que é nosso (meu e dos antigos)", aqui e agora.

             Agora, se voltarmos na história  descobriremos que o desde que Moisés proclamou os Dez Mandamentos, o mundo nunca mais foi como antes, a estrutura do mundo foi se modificando num determinado sentido, assim como a estrutura econômica do Brasil se modificou a partir da primeira plantação de café em São Paulo: pois a vida econômica deslocou-se, criando-se a "capital do café".

             Dessa mesma maneira acontece com a palavra da Bíblia, sendo necessário entrar no lastro criado pela palavra bíblica, onde isso é chamado de sintonizar ou entrar na roda.

             Como a Bíblia nasceu da história de uma comunidade, nasceu na comunidade e foi transmitida com muito carinho no seu meio, faz-se condição necessária para sua leitura, sintonizarmos com esse caráter comunitário.

             Surge daí, a necessidade de lermos a Bíblia a partir de uma comunidade, na ótica de uma comunidade que, de alguma maneira, tenha sintonia com a palavra bíblica.

             Para que isso ocorra é necessário descobrirmos o que a comunidade significa em nossa vida, encontrarmos a pauta na qual podemos decifrar as mensagens mais centrais da Bíblia.

             Mas para obtermos os reais significados de um texto bíblico, muitos leitores da Bíblia desenvolveram muitas maneira, métodos para realizarmos a leitura da Bíblia.

 

 

 2 - Leitura e Releitura nas comunidades da bíblia:

             Verifica-se inicialmente que no antigo judaísmo encontramos exemplos admiráveis deste "entrar na conversa", deste continuar a frase falada e gravada anteriormente.

             Como exemplo podemos citar os textos de Jr.: 2:2-5; 3:1 e 11-13. Mas um quarto de século mais tarde, os textos de Oséias e o Jeremias convidam o profeta Ezequiel a entrar na conversa também.

            Já em 2º Isaías o profeta anuncia que Javé retomará sua esposa repudiada (Is 54:1-8), e no 3º Isaías com a intervenção das palavras de Oséias, proclama "Já não te chamarão: Abandonada (...). Com a alegria do noivo pela sua noiva, tal será a alegria que o teu Deus sentirá em ti" (Is 62:4-5; cf. Os 2:25)."

            Contudo a história continua e seis séculos depois, Jesus de Nazaré, mestre migrante, é criticado por não ensinar o jejum. Mas, para quem sabe ler a pauta traçada pelos profetas, é claro que Jesus é o verdadeiro esposo, que veio celebrar as núpcias da restauração messiânica do povo. E é assim que Paulo pode escrever aos cristãos de Corinto: "Empenho-me por vós com o zelo de Deus, pois desposei-vos com um só esposo, querendo apresentar-vos a Cristo como virgem intacta" (2 Cor 11:2).

            Poderíamos ainda citar muitos outros exemplos, contudo em todos esses o que observamos é a leitura interpretativa dos textos. Dessa maneira, o que observamos é o método de leitura e a explicação bíblica dos rabinos de seu tempo. Para isso, estudavam a Lei para investigar o que podiam significar no atual momento as palavras antigas, que estruturam a vida do povo.

            Assim, leitura bíblica pode ser classificada como uma re-leitura, visando reviver a antiga palavra, a partir da tradição que ela criou para chegar até nós, na nova situação em que nós nos encontramos. E foi assim que os autores bíblicos recentes liam os seus predecessores mais antigos.

            Foi dessa mesma maneira, que Jesus e os rabinos do seu tempo liam a Bíblia, bem como as primeiras gerações cristãos.

            Assim, o famoso Orígenes distinguia entre o sentido "somático" (=corporal: a narração exterior e verbal dos fatos) e o sentido pneumático (= espiritual, interior, escondido); sendo que este último é o sentido que o exegeta deve perseguir, naturalmente sem negligenciar o primeiro. Sendo que esse sentido espiritual é produzido pelo "Espírito" de Jesus Cristo, ativo na comunidade dos fiéis, quando se lê os textos que guardam a sua memória.

 

 

3 - OS MÉTODOS DA CRÍTICA LITERÁRIA E HISTÓRICA:

            Verificamos que tanto Orígenes como Agostinho, sabiam muito bem o que os textos bíblicos tinham significado na sua origem; contudo procuraram conscientemente um sentido novo, atual, que se convencionou chamar de sentido "pleno", ou seja, desenvolvido a partir de sua potencialidade escondida, sua "reserva de sentido".

             Entretanto, se nos voltarmos para a Idade Média, descobriremos que a leitura bíblica nesse período era espontânea e pragmática. Ou seja, lia-se a Bíblia, procurando nela um pensamento que iluminasse a vida, a doutrina, a moral, dentro da perspectiva do leitor ou de sua comunidade; mas não se procurava o que o autor queria dizer para o contexto em que ele se encontrava.

            Porém, contra este tipo de leitura sujeita à manipulação e eventualmente atribuindo aos veneráveis autores aquilo que eles nunca quiseram dizer, vez surgir a atitude crítica em relação ao texto bíblico, comparável à reação de alguém a quem as pessoas na rua informaram erroneamente o caminho; desconfiando dessas pessoas que não sabem e decidem investigar cientificamente, consultando a planta da cidade.

           Mas em todos os métodos da investigação crítica da Bíblia, convém observar o objetivo, a pergunta à qual eles querem responder e os critérios que eles usam, sendo estes últimos de dois tipos: internos e externos.

           Vejamos em seguida os três tipos de críticas utilizados:

 

        A) Crítica textual:

   Objetivo: reconstituição do texto assim como foi escrito originalmente pelo autor.

          Pergunta: Existe no texto de hoje o que o autor escreveu originalmente? Qual o grau de confiabilidade de nossos documentos?

          Critérios: é utilizado para julgar qual das "leituras variantes" de determinado texto é a mais provável, sendo dividida em duas: 

        a) externos, relativo a comparação dos textos atuais com os antigos manuscritos bíblicos; bem como ver qual o valor global de determinado manuscrito, observando-se as variantes;  

        b) internos: relaciona-se como as diversas variantes apresentadas nos antigos manuscritos, em igualdade de outros argumentos, pois as cópias tendem a facilitar o texto ao copiarem; a variante mais breve de um texto é preferível à mais longa, pois os copiadores e recensores têm a acrescentar coisa no texto; ver se a variante oposto pode ser aceita ou, pelo contrário, se mostra inaceitável, confirmando-se neste caso a variante considerada por primeiro; desconfiar de variantes que tornam diferentes textos bíblicos mais semelhantes entre si ("harmonizações").

              

        B) Crítica Histórica:

   Objetivo: reconstituir os fatos narrados conforme sua objetividade histórica na medida do possível.

          Pergunta: “O que a Escritura aqui conta, mesmo? A palavra que ela relata, foi falada de verdade?”.

         Critérios: Podem ser divididos em: 

        a) externos: relativos com os testemunhos arqueológicos, bem como os documentos de tipo administrativo e do tipo literário. 

        b) internos: já esses estão relacionados com as contradições internas, com a maior ou menor probabilidade do fato ou discurso narrado, etc. 

É importante se destacar que com relação à Bíblia, a crítica histórica já foi mais importante do que ela é hoje em dia.

 

C) Crítica Literária: 

Objetivo: têm como principal alvo descobrir a intenção do autor, o que ele quis dizer, levando em consideração as circunstâncias e modalidades da produção do texto, o estilo, o destinatário, etc.

       Pergunta: Baseia-se nas seguintes questões: Por quem, onde, quando, como, para que, para quem, conforme que estilo, etc. foi escrito este texto?

     Critérios: Podem ser classificados em dois: 

        a) externos: baseados no testemunho de fontes arqueológicas, literárias, documentais, arquivísticas, etc.     

        b) internos: referindo-se a: indícios internos na obra a respeito do autor, sua intenção, etc.; quanto a unidade de estilo, vocabulário e pensamento; onde a observação atenta destes elementos pode levar a confirmar ou a negar que tal obra é escrita por um só autor, como uma só obra, etc.; e pela probabilidade que tal estilo, tema ou vocábulo existissem na presumida época de redação da obra.

         Depois de termos vistos esses três tipos de críticas, existem ainda as ciências auxiliares que nos ajudam a um melhor conhecimento dos textos bíblicos, como a: arqueologia, a paleografia, a cronologia, a filosofia, a lingüística, a história, a geografia, bem como a história comparativa das religiões.

Com tudo isso, descobrimos a real necessidade de uma investigação crítica da Bíblia, que ajudam muito um biblista a melhor entender os textos bíblicos.

  

4 -  O ESTUDO HISTÓRICO-INTERPRETATIVO:

             Nesse tópico podemos ver que a pesquisa ou investigação de um texto bíblico nasceu de uma ótica historicista, que quer reconstituir historicamente o manuscrito original, os fatos, o texto original do autor e sua evolução até a redação final da obra; sendo inspirada na desconfiança com relação à origem do texto e das narrações bíblicas.

             Com isso, a investigação histórico-literária ajudou-nos a constatar que a história do texto bíblico é pura em comparação com outras literaturas antigas. Principalmente, após a descoberta dos documentos manuscritos de Qumran!

             Desta forma, a Bíblia não quer reconstituir fatos e palavras, mas possibilitar a memorização e a reescuta de antigas palavras e tradições, renovando-lhes o sentido. Sendo esse sentido que devemos compreender os novos métodos da investigação da tradição, forma literária e redação dos escritos bíblicos praticados desde o segundo quartel do século XX.

             Concluímos pois, que é muito importante sabermos como esta memória se formou; qual era sua tendência, seu interesse; o que ela considerava como referência de sua identidade, que grupos transmitiram o quê; se houve grupos concorrentes ou rivais; etc.; onde tudo isso é conhecido como pesquisa da tradição.

             Outro ponto visto pelo autor, refere-se ao fato de que conforme a função que determinado elemento da memória exerce, sal "cristalização" literária (oral ou escrita) pouco importa.

            Assim o gênero das lei pretende dar continuidade à organização e estruturação inicial do povo como "povo de Javé", desde do êxodo; onde faz parte a atribuição da legislação a Moisés.

             Outro gênero destacado diz respeito as etiologias ou explicações de costumes, nomes, ritos antigos, etc. Ou seja, sua função é cravar estes nomes e costumes na memória com uma explicação que, se possível, contenha alguma lição moral.

             Existe ainda um gênero que foi muitas vezes mal entendido que é o das narrativas teológico-didáticas, como são a maioria das primeiras páginas da Bíblia: Adão e Eva, Caim e Abel, o dilúvio, a torre de Babel, etc. E é aqui que o historicismo faz com que entre um "ruído" nesta forma de comunicação, torna incompreensível a mensagem; provocando em quem quer saber se "foi assim mesmo", e, se não foi, recusando-se a acreditar.

             Contudo, é preciso destacar que passados inicialmente a ingenuidade e o ulterior historicismo positivista, começou-se a intitular estas narrações de "mitos", por causa de semelhança com os mitos de outros povos. Porém, é necessário sermos prudentes em chamar as narrações teológicas da Bíblia de mitos, pois elas foram desmitologizadas e transformadas em veículo lingüístico de um conceito não-mítico, mas histórico-salvífico de Deus e do mundo.

             Outro gênero que merece destaque refere-se ao gênero Sapiencial, como pode ser comprovado numa primeira leitura do livro de provérbios, por exemplo; ou seja, esse gênero abrange sabenças do povo, colecionadas mais ou menos por tópicos.

             Essa sabenças, após terem sido recolhidas na literatura sapiencial são contraditórias entre si. Mas tudo isso faz parte, do gênero de provérbio, que quer ensinar de forma sucinta e contundente uma observação empírica, não sistemática, mas real. Ou seja, provérbio não é um dogma ou uma conclusão teológica; mas têm por função levar-nos a reflexão.

             Já com relação ao Novo Testamento o que observamos é um tipo peculiar de investigação das formas literárias, chamada de "crítica das formas" ou "estudos das formas literárias".

             Esse estudo tem por finalidade, não apenas catalogar as diferentes formas em que as tradições dos fatos e ditos de Jesus forma cristalizadas, mas ainda pesquisar o contexto vital da comunidades, que se reflete na própria forma literária. Conseqüentemente, tal forma de pesquisa permite-nos ver que as primeiras comunidades, antes dos textos evangélicos escritos, "continuavam a conversa" de Jesus, levando em consideração o novo contexto em que elas viviam e atuavam.

             Outro estudo muito importante a ser realizado, refere-se ao trabalho realizado pela escola sacerdotal, no Pentateuco, e pela escola deuteronomista, na historiografia deuteronomista. Onde essas duas sínteses teológicas, nos ajudam e muito, a descobrir novas potencialidades do texto para o dia de hoje.

 

 5 - OS MÉTODOS SEMÂNTICO-ESTRUTURAIS:

             Esses métodos por sua vez nos ajudam a conhecer melhor a realidade em torno ao texto. Tal método pode ser classificado ainda como métodos históricos-interpretativos que ajudam a melhor perceber o que os transmissores do texto bíblico, antes e no momento da redação, quiseram dizer.

             Dessa maneira, com tal método nos ajudam a enxergamos com clareza o que estava por detrás de um determinado escrito; onde a semiótica ira analisar estas leis e a leitura semântico-estrutural aplicando isso à Bíblia, como a qualquer outra literatura, chegando a resultados interessantes.

             Contudo, é importante destacarmos que mesmo dentro dos limites da significação condizente com a comunidade, a leitura construtiva e estrutural permite-nos o desenvolvimento de muitos significativos novos, sem contradizer o sentido original.

             Portanto, para não matar a criatividade e vitalidade das próprias comunidades em dar sempre novo sentido às palavras de sua fé, a função do magistério deve ser de excluir o que for incompatível, e não de prescrever o que é permitido pensar.

 

 

 

6 - A LEITURA SOCIOLÓGICA:

            Essa por sua vez baseia-se no sentido de que: como existem diversas maneiras de se ler a Bíblia, correspondendo a diversos contextos de atualidade, a diversas situações e prioridades de ordem cultural, eclesial, social; esse método ensina a perceber que a comunidade de fé apresentada na Bíblia é integrada por pessoas que enfrentam o desafio de se organizar em comunidade social e política, no contexto histórico da respectiva época, ao mesmo tempo em que elas procuram ficar fiéis às percepções religiosas reveladas por Deus.

            Desta forma, o método sociológico nos ensina a ler a Bíblia com os pés no chão. Ou seja, coloca a pergunta sobre o que "é de César", ao mesmo tempo que, lembra a fidelidade à Aliança com Deus, bem mais radical e revolucionária que a questão do imposto romano.

            Porém, é preciso precaver-se do conceito mecanicista que atribui todas as mudanças históricas exclusivamente a fatores de ordem socioeconômica, considerando as outras motivações (religiosas ou culturais) como reflexos secundários dos fatores materiais. A dimensão religiosa é tão "básica" no homem quanto a dimensão econômica, e ela é a mola propulsora de não poucas revoluções.

 

7 - EXEGE E HERMENÊUTICA:

             Sendo considerado duas ferramentas principais para uma boa interpretação dos textos bíblicos, onde a primeira realiza uma abordagem no sentido visado pelo autor no seus contexto (sentido histórico) com o termo exegese (explicação).

             Já a segunda ferramenta consiste no desenvolvimento de um sentido para nós hoje, conhecido como hermenêutica (interpretação).

             Dessa maneira, como ainda hoje muitos lêem os textos bíblicos num sentido que o autor não tinha consciente, mas que não deixa de ser legítimo, porque esta baseado numa mesma compreensão da vida. É o caso da leitura política de determinados textos.

             Conseqüentemente, a hermenêutica fornece as significações do texto que são reais na prática hoje. Onde esse sentido real só é entendido por uma transposição da mensagem em termos novos, relacionados com o novo contexto.

             Além disso, o sentido histórico ajuda a compreender o sentido atual e vice-versa. Ambos são legítimos, mas diferentes, e a não observância da diferença na abordagem leva a muitos conflitos de interpretação.

           

8 - O POVO COMO SUJEITO DA LEITURA BÍBLICA:

             E finalmente chegamos ao ponto em que, o cristianismo tradicional do Primeiro Mundo foi marcado por um afastamento entre o povo e a Bíblia; devido ao fato de muitos consideravam a Bíblia como coisa dos protestantes.

             Porém, dentro de uma perspectiva sociológica permitiu-nos estabelecer um diálogo entre as classes populares e a tradição bíblica. Pois o povo simples percebeu que muitos de seus problemas do dia-a-dia, eram também os problemas do povo bíblico.

             Conseqüentemente, para tais comunidades, a Bíblia voltou a ser o que ela é na sua raiz: a memória de uma comunidade, o livro de sua vida.

            Assim, a Bíblia passou a ser considerada essencialmente a lembrança da fidelidade de Deus para com seu povo, sem acepção de pessoas; sendo Deus considerado Pai tanto para bons como maus. E mais, qualquer tentativa de reservar o "privilégio" da solidariedade de Deus para uma classe, uma casta, uma cultura é contrária ao espírito da Bíblia.

           E após tudo isso chegamos a conclusão que a Bíblia tem que ser restituída ao povo como sua Carta de LIBERDADE.

 

BIBLIOGRAFIA:

Konings, John - A LEITURA DA BÍBLIA
Belo Horizonte - MG / Brasil
Pág.: 58 à 73

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