Esse período teve sua origem durante o século XVIII, primeiramente no continente europeu, onde ocorriam profundas transformações cientificas e culturais; afetando profundamente a atividade teológica. Assim, as raízes desse período encontram-se no humanismo da Renascença e no socianianismo, no deismo da Inglaterra do século XVII.
Contudo, mesmo com todas essas mudanças ocorrendo dentro dos sistemas filosóficos, acabaram auxiliando o surgimento desse sistema, favorecendo novas descobertas e teorias no campo das ciências naturais (Newton) e no campo da jurisprudência (Grotius, Pufendor); bem como no campo da teologia; pois favoreceu o pietismo, servindo para promover o desenvolvimento de alguns sentidos.
Assim, passaremos a ver quais as mudanças ocorridas durante esse período:
O campo do PENSAMENTO FILOSÓFICO foi profundamente transformado, principalmente através da nova filosofia escolástica que substituiu o escolasticismo aristotélico nas universidades alemãs do século XVIII. Sendo que isso pode ser observado através do conceito metafísico que foi substituído por um conceito empírico e atomista da realidade. Outra mudança que aconteceu refere-se ao fato de que a antiga filosofia objetiva foi substituída por uma forma prática e utilitária de sabedoria, cujo objetivo primordial era o de ensinar o homem a entender e controlar seu ambiente e gozar a felicidade neste mundo (que era também conhecida como filosofia da moderação). Pois, o antigo pensamento partia do objeto, ou seja, a metafísica procurava um conhecimento objetivo do significado mais profundo da realidade.
Foi durante esse período que surgiu um dos mais importantes pressupostos, que fazia referência ao novo conceito de educação; uma vez que a filosofia não mais se considerava serva da teologia. Isso aconteceu uma vez que essa foi libertada da influência da segunda e da metafísica escolástica, passando a basear-se nas observações da experiência e em princípios racionais. Dessa maneira, esse sistema estava baseado na idéia de que a erudição humanista, a religião e a moral, a lei e a política podem ser fundamentadas em princípios racionais específicos, comuns aos homens de todas as épocas. Assim, o conhecimento natural era considerado como sendo autônomo, imediatamente acessível e na íntegra evidente a todos, sem ter sido obscurecido pelo pecado original.
Outro campo onde ocorreram profundas transformações foi no campo das ciências naturais, pois os estudiosos começaram a aplicar o método matemático, bem como se fundamentar na observação empírica, vindo esse a ser de interesse primordial. Dessa maneira, somente no século XVIII que a concepção do sistema solar apresentada por Copérnico no século XVI foi geralmente aceita, deixando a Terra de ser considerada o centro de tudo e o homem passou a ser apenas um grão de poeira no universo. Assim, o conceito aristotélico de certa forma foi substituído pela explicação mecânico-atomista do mundo, consistindo a vida num espaço inalterável, onde as coisas são compostas de partículas que exercem influência mecânica umas sobre as outras, preenchendo o espaço. E os homens não mais consideravam as formas substanciais como sendo os elementos básicos no edifício do universo; mas pensavam somente em termos de entidades materiais; tendo como resultado dessa explicação mecânica da natureza, o contraste básico entre matéria e espírito, sensitivo e supra-sensível.
Dessa maneira, a idéia acima se opunha diretamente a antiga maneira de conceituar o mundo, pois essa estava centrada na crença que a razão humana tem competência para observar e controlar seu ambiente, para estabelecer leis para os fatos da vida; bem como para as regras da sociedade humana. Tudo isso, pelo fato de que uma explicação racionalista da natureza e uma doutrina racionalista de moralidade resultaram dessa nova atitude.
Assim, podemos ver que o iluminismo caracterizou-se por uma fé ingênua no homem e em suas potencialidades.
Outro campo no qual o iluminismo exerceu profundas mudanças foi na jurisprudência, onde Hugo Grotius (1645) forneceu a base para o moderno conceito de direitos naturais. Pois, a idéia de lei natural era integrada no contexto da revelação e no conceito bíblico de homem. Porém, nessa nova fase, esses direitos passaram a basear na razão humana, bem como eles serviam de base comum para a administração pública da lei, onde a moralidade baseava-se na razão autônoma.
É interessante notarmos que durante esse período surgiu um novo conceito sobre o estado, onde a antiga tradição luterana considerava a autoridade instituição divina, comissionada para o protetor de ambas as tábuas da lei”, onde homens como Tomás Hobbes conceberam a idéia do estado secular, baseando-se na indulgência humana, cuja finalidade era a de promover a salus publica, ou seja, o bem estar geral. Contudo, como o estado era dirigido por um príncipe absolutista as considerações políticas eram colocadas acima das eclesiásticas, levando a perda de independência da igreja. Dessa forma, nesse novo modelo, que também era baseado numa fé otimista na razão, acreditava-se ser o homem capaz de organizar os problemas políticos de tal maneira que o bem comum seria conseguido. Mas foi somente na metade do século XVIII que a neologia, ou seja a teologia racionalista começou a aparecer entre os protestantes alemães.
Mas, a mudança mais importante gerada por esse novo sistema esta baseada no novo conceito de religião natural. Assim, segundo Herberto de Cherbury existe uma religião natural, comum a todos os homens e independente de revelação, pela qual o homem pode tornar-se bem-aventurado, mesmo sem o conhecimento da revelação. Segundo esse conceito Cristo além de ser um sábio mestre, possuía sobretudo um exemplo de virtudes; onde o conteúdo da religião natural fosse apresentado nas cinco proposições seguintes: 1) há um Deus, um ser supremo; 2) que deve ser cultuado e servido; 3) este culto consiste acima de tudo em piedade e virtude; 4) que desvios do pecado exigem arrependimento; e 5) havendo arrependimento, haverá também o perdão, o mal será punido e bem recompensado numa vida futura.
Porém, mesmo com tudo o que foi descrito acima, é importante destacar que a cultura do Iluminismo se distinguiu por sua crescente secularização. Onde a novo forma de ciência natural passa a se ocupar com uma explicação imanentista do mundo; além do fato de que a cultura secular desenvolve-se independentemente da igreja e de suas confissões.
Contudo, isso acabou não implicando na rejeição do cristianismo ou da religião, mas trouxe consigo profunda alteração dos pressupostos para a teologia e a pregação cristã; fato que pode ser observado nas seguintes tendências que influenciaram a teologia do iluminismo:
1) A teologia formou-se mais ou menos dependente da filosofia e do pensamento racionalista; ou seja, em vez de exigir que a razão se sujeitasse ao testemunho da Escritura, passou-se a crer firmemente que a revelação e princípios racionais estão em completa harmonia; uma vez que se desejava justificar a revelação perante o tribunal da razão.
2) Ao lado dessa racionalização da teologia havia a tendência de moralizar; onde essa passou a ser a principal preocupação no conceito de vida moderna, racional; do que a religião. Isso aconteceu pelo fato de que se considerava como principal finalidade do cristianismo o fato de se conseguir uma moralidade elevada; além dessa constituir o conteúdo ético.
3) Já em terceiro lugar, vemos que a idéia de que a religião se fundamentava em especial em princípios racionais acabava fortalecendo a concepção individualista, uma vez que essa estava baseada nas experiências da própria pessoa.
4) E em quarto lugar, foi a tendência de “humanizar” o cristianismo, de acomodá-lo a uma estrutura antropocêntrica, esperando com isso a que a teologia trouxesse o bem-estar humano, procurando harmonizar as verdades teológicas com princípios racionais, que acabou provocando a rejeição do cristianismo.
A TEOLOGIA
INGLESA NA ERA DO ILUMINISMO:
Surgida no final do século XVII, período marcado predominantemente pelo ponto de vista denominado “latitudinarismo”, onde seus representantes acreditavam que a revelação concordava plenamente com a razão e com os princípios religiosos discerníveis através dela, dando origem a teologia inglesa.
Além disso, em contraste com os deístas, estes não desejavam substituir o cristianismo tradicional pela religião natural, mas julgavam que a religião revelada tinha seu melhor sustentáculo na razão; pelo fato de que acreditavam ser a fé a convicção baseada em considerações racionais; bem como defendiam que as verdades religiosas não podiam ser provadas, mas com certeza a moral poderia ser atingida, em parte com base na suposição que a Bíblia era a única fonte fidedigna e que os milagres confirmam sua autoridade.
Porém, uma grande contribuição a essa linha de pensamento foi feita pelo filósofo João Locke (1632-1704) relacionado à questão de fé e do conhecimento. Pois ele distinguia claramente entre a revelação e razão, afirmando que as proposições da fé repousam sobre bases completamente diversas das verdades da razão. Assim, revelação direta, tal como a que veio aos profetas e apóstolos, implica numa certeza igual à associada ao conhecimento evidente. Conseqüentemente, a revelação chegou até nós através de linguagem e compreensão humanas.
Por esse motivo que a fé cristã deve sempre ser julgada até certo ponto pela razão, e só pode ser aceita se não for contrária aos princípios evidentes da razão.
E foi seguindo esse pensamento que Locke procurou apresentar em um dos seus livros, um cristianismo bíblico puro, independente da teologia posterior e dos credos da igreja; onde não negou a doutrina da trindade, mas procurou encontrar os equivalentes bíblicos de seus termos.
Dessa forma, seguindo essa forma de pensamento que Locke encontra os protótipos de duas tendências que chegaram a se tornar característicos da teologia do iluminismo na Inglaterra, que foram:
1) consistia no desejo de demonstrar a racionalidade do cristianismo;
2) referia-se a questão de reproduzir o que se considerava ser uma forma não corrompida da doutrina bíblica.
Mas, existe algo que não
podemos deixar de destacar que toda mensagem de Wesley destinava-se a levar as
pessoas a uma vida de fé ativa e santidade.
Contudo, apesar das diferenças de opinião, Wesley desenvolveu a doutrina da fé e obras, numa direção que o afastou mais do ponto de vista da Reforma, aproximando-a da concepção inglesa; onde era mantido que as obras são a condição necessária para a justificação.
Outra doutrina defendida e que causou grande controvérsia, proclamada por Wesley dizia respeito a predestinação, que proclamava a graça universal à moda arminiana e que se opôs veemente à idéia da eleição divina para a condenação.
E foi esse o motivo que causou a divisão ocorrida dentro do metodismo.
Teologia de
Transição:
Constituindo outro termo empregado para agrupar os teólogos alemães do século XVIII, que combinaram uma atitude conservadora face à antiga tradição luterana com a posição filosófica da parte inicial do iluminismo e a teologia do pietismo.
Dessa forma, João Francisco Buddeus substituiu a filosofia escolástica de Aristóteles por uma filosofia “eclética”, salientando especialmente o uso prático do conhecimento; onde a metafísica era limitada à explicação de certos conceitos úteis à teologia; evidenciando uma atitude empírica em suas obras.
Contudo, para fins práticos eram salientados energicamente: que o alvo da teologia era considerado como sendo a apresentação daquilo que o homem pecador deve saber para ser salvo; onde a revelação não pode conter qualquer coisa contrária à religião natural.
É importante destacar-se que foi Buddeus o primeiro a escrever a história do Antigo Testamento e da era Apostólica; sendo João George Walch, conhecido como o historiador da igreja e editor das obras de Lutero, como um dos seus mais destacados discípulos.
Wolffianismo
Teológico:
Foi Cristiano Wolff o responsável por edificar um sistema de filosofia escolástica racional, usando a matemática como modelo. Para ele, enquanto a filosofia escolástica anterior tratava da diversidade de existência de modo mais empírico, o assim chamado método de demonstração visava descrever as coisas de maneira tal que um atributo seria derivado de outro em relação estritamente lógica; onde a educação deveria basear-se em conceitos claros e específicos; onde nada deve ser apresentado sem prova.
Já quando comparamos essa posição com a Teologia da Transição, observamos que o Wolffianismo representava um retorno a uma posição mais objetiva; uma vez que sua teologia acabava formando um sistema logicamente conseqüente, sujeito à argumentação racional.
Assim, um dos influenciados por esse pensamento foi Jacó Baumgarten que em uma de suas obras caracterizava-se pro sóbria racionalidade e escrupulosa divisão lógica do material. Ou seja, aceitava a harmonia entre razão e revelação; onde o próprio conhecimento de Deus que possuímos nos conduz a idéia de revelação Especial, e as provas racionais para verdades das Escrituras nos convencem que a Bíblia é fonte desta revelação.
Neologia:
Esse termo refere-se a uma etapa no desenvolvimento teológico da era do Iluminismo em que o deismo inglês conseguiu estabelecer uma cabeça de ponte na vida cultural da Alemanha.
É interessante notarmos que enquanto o Wolffianismo defendia a doutrina tradicional da igreja com o auxílio da razão, a neologia representava a transição a uma consciente crítica dos dogmas.
Além disso, a maior modificação gerada por esse desenvolvimento foi que a Bíblia foi inserida no esquema do desenvolvimento humano; bem como o Antigo Testamento foi separado do Novo Testamento como algo pertencente a um nível inferior e o conteúdo da Bíblia foi exposto à crítica com base em normas modernas.
Outro
ponto destacado diz respeito ao psicologismo moralista da Neologia que andava de mãos
dados com um conceito otimista do homem, pois se pensava que a doutrina do
pecado original era contrária à idéia do valor humano. Assim, Cristo não era
considerado como Filho de Deus, em lugar disso se dizia que era o Salvador
enviado pelo Pai, e todas as referências à expiação e à satisfação eram
omitidas; supondo ser o Espírito apenas um poder para se fazer o bem.
Um outro defensor dessa linha,
Semler foi responsável por lançar os fundamentos para a história do dogma como
disciplina separada; onde o cânone era simplesmente a coleção dos escritos que
a igreja aceitara. Contudo, não reconhecia qualquer autoridade canônica
original.
Agora, a fim de explicar a falta de
concordância entre o Novo Testamento e a Religião
moralista, Semler presumiu
que Jesus e os apóstolos se adaptaram conscientemente às idéias de seu tempo.
Portanto, o cristianismo podia ser desenvolvido acima e além da posição bíblica,
o que constituí sua capacidade de aperfeiçoamento; além de que a revelação não
coincide com a Escritura.
Já João Augusto Ernesti (1781),
professor em Leipzing foi responsável no campo da hermenêutica, onde a
interpretação histórico-gramatical da estrutura deveria formar a base para a
atividade teológica; além de que esse não reconhecia a exigência do pietismo
concernente à piedade pessoal do intérprete.
RACIONALISMO E O SUPERNATURALISMO:
Constituindo uma posição dentro do
iluminismo, o racionalismo teológico defendido principalmente por Immanuel
Kant, era diferente do Naturalismo; uma vez que esse não negava a revelação.
Pelo contrário, insiste que a religião moralista da razão é a única religião
necessária, sendo que o aspecto mais importante dessa experiência religiosa era
a modificação no caráter por cujo intermédio o “mal radical” no homem é
derrotado e o bem trazido à tona. Isso acontece através da punição e do
arrependimento, cabendo a igreja fornecer o impulso que conduz a salvação.
Agora, um dos mais notáveis
dogmáticos do racionalismo foi Júlio Augusto Luis Wegscheider, que rejeitava ou
deturpava os ensinamentos básicos do cristianismo. Milagres, bem como tudo o
que fosse sobrenatural eram rejeitados; a conversão era concebida em sentido
pelagiano; os sacramentos eram interpretados simbolicamente e a ressurreição de
Cristo como despertamento de morte aparente; afirmando que a morte de Cristo
simboliza o fato que os sacrifícios cessaram. Não se aceitava a expiação,
mantendo que a ascensão era conto de fadas. E o conceito de pecado original era
rejeitado como ilusão sombria, onde o arrependimento supunha-se ser obra do
próprio homem, e por fim, o batismo era considerado como cerimônia de dedicação
e a ceia do Senhor como festa memorial.
Porém, o racionalismo sofreu
oposição do SUPERNATURALISMO que se fundamentava na necessidade de
revelação e da autoridade da Escritura. Todavia, ambos tinham esta
característica comum: um conceito intelectualista da religião. A
substância dessa era apresentada em termos de proposições doutrinárias,
chegando até mesmo a descoberta pela razão humana e outras somente através da
revelação.
Em contraste a tudo isso, várias
tendência intermediárias surgiram, sendo influenciados até mesmo pelo
romantismo, o qual afirmava que: quando os homens deixaram de pensar na
religião como coleção de doutrinas, passando a considera-la elemento da vida
pessoal da alma, a alternativa entre o racionalismo e o supernaturalismo não
era mais relevante, pois ambos podiam ser integrados num ponto de vista
uniforme. Ou seja, a religião não era mais considerada em termos de moralidade
e metafísica, mas como manifestação independente da vida espiritual do homem.
OBS.: Caso você
tenha gostado dessa matéria, notada alguma falha, bem como queira sugerir algum
assunto para ser aqui publicado, queira por favor nos enviar um e-mail. Pois,
sua participação é muito importante para nós!